Versão originalmente publicada no Jornal de Negócios em 17 de junho de 2026.
Comunidades de Energia: Transformar energia em valor económico
22 de Junho, 2026
Durante anos, a energia foi encarada pelas empresas como uma despesa inevitável. Um custo operacional, como tantos outros. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente.
José Queirós de Almeida
CEO Greenvolt Comunidades
Num contexto em que a volatilidade e a incerteza passaram a fazer parte da realidade económica como norma, as empresas que continuam a gerir a energia numa lógica puramente tática, centrada na compra em mercado e na otimização do preço no curto prazo, estão, na prática, a deixar uma variável cada vez mais relevante do negócio dependente de fatores externos. A energia, e a eletricidade em particular, passaram a ter impacto direto na competitividade das empresas.
A questão já não é apenas quanto custa a energia, é quem controla essa variável. É também por isso que as comunidades de energia estão a ganhar escala. Ao permitir produzir e partilhar energia renovável localmente, este modelo transforma ativos subutilizados em fontes de valor económico, reduz a exposição ao mercado e cria benefícios para produtores e consumidores.
Estes modelos eram frequentemente vistos como um conceito promissor. Hoje, essa realidade mudou. A evolução tecnológica, a maturidade do mercado e a melhoria dos mecanismos de operacionalização permitiram acelerar significativamente a sua adoção. As comunidades de energia estão a crescer não apenas porque são uma ideia boa, mas porque fazem sentido económico.
Os produtores passam a valorizar melhor os seus ativos e a produzir parte da energia de que necessitam a custos mais baixos. Os consumidores, incluindo aqueles que não têm condições ou interesse em instalar sistemas próprios, passam a ter acesso a energia renovável a preços mais baixos.
A escala que este mercado alcançou é visível nos números. A Greenvolt passou de 10 para 143 comunidades de energia operacionais em cerca de dois anos, assumindo hoje a liderança do mercado português, com 55 MWp em operação e mais de 60 MWp em desenvolvimento.
No conjunto, nos últimos quatro anos, as empresas que integram as nossas comunidades de energia geraram já mais de quatro milhões de euros de poupanças, sem necessidade de investimento próprio. São recursos que puderam ser direcionados para investimento, crescimento e desenvolvimento do negócio.
Mas existe uma dimensão frequentemente ignorada no debate energético: o custo de oportunidade associado à demora no tempo de decisão dos consumidores. No nosso caso, estimamos que, a demora na decisão em relação às propostas apresentadas, fez que as empresas tenham perdido mais de 18 milhões de euros de poupança! Em matéria de energia, o custo da inação não aparece na fatura, mas isso não significa que não exista.
Se é verdade que a velocidade dos processos administrativos e de licenciamento pode melhorar, também é verdade que a forma como continuamos a olhar para a energia precisa de evoluir. Muitas empresas ainda a encaram como um mero custo e não como uma variável estratégica. E muitas famílias continuam a assumir que pouco podem fazer para influenciar uma despesa que pesa cada vez mais no orçamento. O resultado é que oportunidades concretas de poupança, previsibilidade e valorização económica continuam a ser adiadas.
Portugal dispõe hoje de uma das legislações mais favoráveis da Europa para o desenvolvimento de modelos de partilha de energia renovável e de recursos naturais excelentes. A tecnologia existe e é madura, o racional económico está demonstrado e os benefícios ambientais são conhecidos. Existem milhares de empresas com infraestruturas capazes de produzir energia renovável e milhares de consumidores que podem beneficiar dessa energia.
Durante demasiado tempo, a energia foi um tema importante, mas nem sempre urgente. Hoje é ambas as coisas. O desafio já não está em provar o valor deste modelo, mas em acelerar ainda mais a sua adoção. A diferença estará na rapidez com que transformamos esse potencial em valor económico real.